
Dizer que The Dark Knight superou as expectativas é capaz de ser a melhor forma de começar este texto. Tudo o que seja frase com sujeito, predicado e complemento, já será um sucesso. A verdade é que o filme terminou, vai para sete horas, e ainda não consegui articular um único pensamento em relação ao mais recente trabalho de Christopher Nolan. A palavra correcta é arrebatado. The Dark Knight levou-me para lugar incerto, do qual não consegui ainda retornar ao mundo real. O que é chato, que amanhã levanto-me cedo. Depois de tantas criticas lidas, aqui e além-fronteiras, na sua maioria positivas, que mais terá este humilde mortal a dizer sobre um dos melhores filmes de super-heróis de todos os tempos? Pouco. Muito pouco.
Valerá a pena abrir o dicionário à procura de um adjectivo que ainda não tenha sido utilizado para descrever a interpretação do malogrado Ledger? Valerá a pena partir num desenfreado vangloriar da mestria com que Nolan passeia a câmara por toda a obra, desde os planos mais abertos de Gotham, aos mais fechados, como nos olhares pesados de Rachel? Valerá a pena voltar a dizer que a fotografia de Wally Pfister é das mais sóbrias composições azuleadas que por aí se viu? O nascer do dia, então, vive-se como se a cadeira da frente fosse a nossa varanda. Valerá a pena reforçar a excelência de um argumento aparentemente sem falhas, que talvez peque apenas na sua extensão? Valerá a pena falar na montagem vertiginosa de Lee Smith, que nos leva a balançar na cadeira, sempre que Batman curva na sua Bat-pod?
Não me recordo de entrar numa sala com tamanhas expectativas, e de lá sair com a sensação de que nada era como tinha pensado. Caraças. Era ainda melhor. Muito melhor. O morcego comeu-me a língua, e continuo sem palavras. Provavelmente, só nos próximos dias é que serei capaz do tal insight que nos permite comparar, opinar, argumentar, e fundamentar. Hoje, estou demasiado extasiado para tão árdua tarefa. Assim, mais do que dissecar a obra de Nolan, a qual voltarei certamente a ver na próxima semana, gostaria de deixar uma palavra sobre a discussão em torno do top IMDB. Se este é, ou não, o melhor filme de todos os tempos. Pessoalmente, The Dark Knight não é a melhor obra da História, nem tão-pouco a melhor sequela. Tal honra cabe a um dos meus filmes de eleição, O Padrinho II. Contudo, lá está. A um dos meus filmes de eleição. Aqui, a discussão parece-me óbvia. Cada um sabe do seu nariz. E, acredito que bastará olharmo-nos ao espelho, para vermos que, grande parte dos títulos que mais nos dizem, foi vista quando a paixão pelo Cinema era ainda vivida com aquele fervor inocente. Dos 135 mil que já disseram de sua justiça no IMBD, talvez mais de metade nunca tenha visto um Kubrick, um Capra, um Hawks, um Allen, um Hitchcock, um Lang, um Ford, um Godard, um Wilder, um Kurosawa, ou um Welles. Um dia, terão oportunidade de ver. E, se calhar, nessa altura, provavelmente mudarão a sua opinião. O mesmo acontece com o top do IMDB. Um top é o resultado da votação de diferentes pessoas. Os anos passam, e pessoas deixam de votar, enquanto outras passam a fazê-lo. E, pedir àquelas que só agora se iniciariam no Cinema, que não dêem um 9 ou 10 a The Dark Knight, não é sensato. Um top, tal como as pessoas que nele participam, muda com o tempo. Certo é que, daqui por largas décadas, não envergonhará ninguém dizer que The Dark Knight é o seu filme preferido. Nem que seja por ter visto a película quando era petiz. Agora, não precisa de ser essa a justificação. O raio do filme é bom como tudo!