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10 de agosto de 2008

Concentrado de Nárnia.

No intervalo de uma semana, tive oportunidade de ver As Crónicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (Andrew Adamson, 2004), como preparação para o segundo capítulo, actualmente em exibição nas nossas salas; ver esse tal segundo tomo, As Crónicas de Nárnia: Príncipe Caspian (Andrew Adamson), e lançar-me na leitura daquele que é o primeiro livro da saga narniana, As Crónicas de Nárnia: O Sobrinho do Mágico. Durante uma semana, isto é que tem sido dedicação e entrega ao legado de C.S. Lewis. Duvido que, nos últimos dias, tenha existido maior entusiasta do universo para além do guarda-roupa do que Alvy Singer. De um lado, o diabinho de Harry Potter, a dizer que mundos mágicos só em Hogwarts. Do outro, um anjo em forma de fauno, a dizer que a fantasia de Nárnia não existe em mais lado nenhum.

No cômputo geral, ambos pareceram títulos sólidos e bem conseguidos. Sem ter lido qualquer uma das obras que estiveram na base destes filmes, será impossível avaliar o rigor da adaptação, e saber até que ponto as versões cinematográficas estão fiéis aos livros. Contudo, após sondagens recolhidas à boca das urnas, a opinião de que Adamson está a respeitar os originais é maioritária.

Sobre os filmes, dizer que não há grandes alterações entre o primeiro e o segundo é somente meia-verdade. Isto porque o primeiro filme não perde muito tempo com o mundo real – o segundo mal lhe toca. No entanto, só recentemente fiquei a saber que é em O Sobrinho do Mágico que a grande parte das coisas é aclarada. Como, por exemplo, a origem de Nárnia. Como O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa não se preocupa por aí além com a contextualização, ambos os filmes acabam por seguir um pouco a mesma fórmula. Imaginação, acção, meia bola e força. Num primeiro momento da história, ninguém parece realmente seguro das suas capacidades. Um pouco da síndrome Eu nem devia estar aqui, que tenho outros afazeres. No entanto, um sentido de responsabilidade e justiça superior, apanágio dos grandes líderes e heróis, emerge entretanto. Os maus ficam piores. Os bons, melhores. A batalha prepara-se. Os técnicos de efeitos especiais entram em campo, e temos clímax. Dito desta forma, até parece que tudo isto não passa de um exercício matemático, e que estes são apenas mais dois títulos com finais previsíveis a acrescentar a um extenso rol. Longe disso.

Estes são dois belos filmes Disney, com ténues diferenças entre si. No entanto, ressalta a ausência de um vilão mais presente em o Príncipe Caspian, bem como um aumento notório de agressividade, do primeiro para o segundo. A certa altura, dei por mim a pensar que este seria provavelmente o filme Disney mais violento da História. Hoje, a dúvida persiste. Quando um dos protagonistas decapita um adversário, e a cabeça ainda rola no chão durante uma fracção de segundo, é porque não estamos perante uma obra dos oito aos oitenta e oito. Ainda assim, é certo que faz bem a uma criança ver que o mundo está longe de ser um mar de rosas. No entanto, isto pode ser particularmente confuso quando temos esquilos falantes. Acima de tudo, parece-nos que são duas obras extremamente satisfatórias, e bastante semelhantes entre si. O que, parecendo que não, é um elogio. É preciso recorrer ao photo finish para ver qual dos dois se chega à frente. A verdade é que, no final de tudo isto, fiquei com vontade de ler os sete livros, e água na boca para a próxima adaptação. Por Nárnia!

16 de julho de 2008

Este deve procurar-se.

Eis que chegamos ao terceiro título do tal trio que estabelece um paralelismo com a técnica argumentativa – um tipo não pode planear um pouco mais as coisas, que demora logo mais dois dias do que o esperado. Para este que se assina, Procurado (Timur Bekmambetov) está ali a meio caminho, entre O Panda do Kung Fu e Hancock. Mais agradável que este último. Não tão arrebatador como o primeiro.

Onde Procurado começa logo por marcar pontos é na mestria com que transforma a mais banal das ideias, no mais apelativo dos acontecimentos. Quantas vezes já nos vendeu o Cinema a história do filho que atira a existência vulgar pela janela, para seguir as pisadas do pai errante que nunca conheceu? Assim de repente, não estamos a ver uma que seja. Mas, já devem ter sido umas quantas, para acharmos que isto roça o trivial. No fundo, olhar para o enunciado da teoria da evolução de Darwin, e aí encontrar a ideal fundamentação para a passagem de um património genético incrível, de geração em geração. Neste caso, um fluxo anormal de adrenalina no sangue, que permite ao assassino mustang uma maior percepção dos estímulos à sua volta. Nos momentos mais intensos, a informação processada por Wesley Gibson (James McAvoy) é tanta, e o batimento cardíaco aumenta de tal maneira, que o pobre coitado sempre achou sofrer de ataques de pânico. Mas, não. Afinal, aquilo era só o assassino dentro dele a querer sair. Isto até ao dia em que Wesley vai à mercearia da esquina, e balas começam a sobrevoá-lo. Em boa hora aparece, então, Fox (Angelina Jolie), para salvar o assustado especialista de conta. Daí à chegada do sapiente Sloan (Morgan Freeman), é um passo.

E, é aqui que o filme se transforma. Não muito. Porém, o suficiente para nos levar a acreditar que um contabilista pode ser o tipo mais mortífero à face da terra. No entanto, a pressa volta a relevar-se inimiga da perfeição. A alteração de Wesley, apesar de profunda, decorre velozmente. Sem as devidas e recomendáveis pausas. Em determinados momentos, ficamos sem perceber se o real problema está na montagem frenética, ou nos gaps narrativos. Não que a história não seja credível, que o é. Até papamos o maravilhoso efeito das balas. Contudo, parece-nos que o filme teria muito mais a ganhar a manter-se naquele registo Fight Club, do tipo pacato e sensato que encontra na violência o escape definitivo. Ao invés, Procurado opta pela rejeição completa da persona primeira. Quase tudo neste filme funciona, excepto isso. Talvez o casting não tenha ajudado. McAvoy é um magnífico actor, no entanto, é inegável que o Wesley Gibson sem sal lhe assenta bem melhor do que o Gibson musculado que despe Angelina com os olhos. No final, o que é que acabamos por ter? Um bom filme de entretenimento, duas horas que passam mais do que bem, tatuagens a mais no corpo de Jolie, um James McAvoy em crescendo, e um Morgan Freeman a justificar todos os cêntimos do bilhete que fiquem por justificar. Diacho do homem, que não consegue representar mal. Freeman, a lenda viva do Cinema.

13 de julho de 2008

'Hum... Deixa lá ver se era nesta sala'.

Não queríamos ir tão longe, mas vai ter de ser. E, o que tem de ser, já se sabe, vem com uma força do caneco. Até ao momento, Hancock é a maior desilusão do ano. Neste ponto, gostaríamos de chamar a atenção para a palavra desilusão, sinónima de termos como decepção ou desapontamento. Tamanha desilusão não significa necessariamente que este tenha sido o pior filme visto nas salas desde que entrámos em 2008. Foi sim, o maior desgosto. E, foi-o em grande parte, devido às expectativas. Não só, por serem elevadas, como também por estarem um pouco equivocadas. Certos trailers e featurettes têm o condão de estragar a posterior experiência de ver o filme que anunciam, levantando demasiado o véu. Em Hancock, o material promocional não só não mostrou em demasia, como aquilo que deu a conhecer não está assim tão relacionado com a história quanto isso. As coordenadas não são bem aquelas e quase que podemos falar em publicidade enganosa.

Apercebemo-nos ainda mais disso, quando nos sentamos em frente do computador para escrever sobre o filme. Apontar o dedo a algumas partes do enredo será um spoiler de todo o tamanho. Coisa que não acontece, por exemplo, em qualquer um dos tomos de Homem-Aranha. Temos o Peter Parker, as desavenças com a Mary Jane, o vilão, os conflitos internos, e aquilo gira quase sempre à volta do mesmo – o que torna o segundo filme num verdadeiro feito. Em Hancock, a narrativa não é assim tão linear. E, examinar as carências da obra de Peter Berg pode arruinar por completo as motivações de qualquer cinéfilo que esteja por aí com vontade de ver este filme.

Aquilo que podemos dizer, acima de tudo, é que este não é o típico filme de super-heróis. Nem tão pouco, o habitual filme do 04 de Julho de Will Smith. Aliás, o grande problema deste filme é mesmo a falta de identidade. Peter Berg, que nos tinha brindado com algumas das melhores sequências de acção de 2007 em O Reino, assina aqui uma obra que não é, nem um portento no capítulo da aventura, nem um colosso no relaxamento que se deseja num filme de Verão. O trailer deixa antever uma obra irreverente, onde nada aparenta ser aquilo que é. Um filme contra a ordem estabelecida, determinado a mostrar o lado oculto, sempre com a boa-disposição de Will Smith. Acção e comédia, de mãos dadas, era o que se esperava deste título. No entanto, a isso tivemos direito apenas a espaços. Bem cedo, o filme opta por seguir outro rumo.

Hancock não deixa de ser um filme sobre um super-herói desleixado, que faz o seu trabalho mal e porcamente. Por obra do destino, Ray Embrey (Jason Bateman), um seguidor do optimismo e perseverança do Richard Hooper (Greg Kinnear) de Little Miss Sunshine, cruza-se com Hancock, e leva-o a crer que uma mudança de atitude pode levar a uma alteração da opinião pública a seu respeito. A velha máxima do comportamento gera comportamento. E, este é o motor do filme. Contudo, lá para o meio, as origens de Hancock vêm ao de cima. Ao mesmo tempo, e com uma preparação inferior a um minuto, surge o vilão do filme. Quase de seguida, um triângulo amoroso onde os vértices não sabem muito bem onde se posicionar. No final, um drama intenso, que raramente permite ao espectador a liberdade que marca os filmes da temporada. A última sequência, quase que parece tirada de um Alien.

Contudo, aqui também há que assumir a culpa. Quando a mensagem não chega convenientemente, o receptor deve reconhecer a sua quota-parte. Acreditamos que, para quem já antecipava algo do género, o filme não tenha sido uma desilusão assim tão grande. Mas, que esperava mais risadas, esperava. Não apontámos a mira como deve ser. Da próxima vez é preciso ter mais atenção.

O Golpe do Drag... Panda.

As técnicas da argumentação aconselham-nos a dividir a exposição em três partes. A primeira, e mais fulcral, deverá conter os fundamentos mais fortes e convincentes. Aqueles que prendem a atenção do espectador. A segunda, porque a plateia nem sempre mantém o mesmo estado de alerta, será aquela onde depositamos a apresentação mais fraca, na qual não estamos tão confiantes. No fundo, aquela que dominamos menos bem. Por último, a terceira fase, aquela em que rematamos numa apoteose argumentativa, se possível, com o mesmo entusiasmo inicial, e com argumentos tão persuasivos como os primeiros. Este ideal teórico das dissertações servirá sobretudo para estabelecer o paralelismo com este post e os próximos dois. Estes três textos, cada um sobre o seu filme, seguem um pouco esta lógica. Se bem que aqui o termo de comparação deva ser a qualidade do filme. Começaremos, assim, por falar do mais agradável dos três. Em seguida, do mais fraquito, ironicamente, sobre um super-herói. Por último, daquele que foi uma óptima surpresa, apesar de não enchido as medidas como o primeiro. Ora bolas, agora que penso nisso, ao lermos o blog, este post surgirá em último lugar. Caramba. Enfim, problemas técnicos aos quais somos completamente alheios.

Iniciemos, então, as festas da crítica, com uma análise a O Panda do Kung Fu (Mark Osborne e John Stevenson). A primeira ressalva a fazer sobre o mais recente filme de animação saído dos estúdios Dreamworks, é a de que estamos na presença de uma das mais habituais premissas dos filmes de animação. Pelo menos, dos clássicos de outrora. O tipo mais improvável e com o sonho mais estapafúrdio – aos olhos dos outros, claro está – a querer mostrar que nada é impossível. Deve haver qualquer sequência no genoma humano que, uma vez bem concretizada, nos leva a sucumbir a esta ideia que nem uns patinhos. E, em O Panda do Kung Fu, é mais ou menos isso que acontece. Este não é um filme que rompe com o passado e traça novos caminhos para o mundo da animação. Contudo, também não é uma obra de colagens.

Isto é um bocado aquilo que acontece naqueles prédios construídos tão perto uns dos outros, que é impossível não deixar de ver o que se passa na sala de estar do vizinho da frente. Que ninguém se iluda, ao pensar que o pessoal da Dreamworks não anda por aí a escrutinar o material da Pixar. Neste momento, o mais natural é Jeffrey Katzenberg e todos os seus subordinados serem influenciados pelo trabalho de John Lasseter e companhia. É claro que podemos também colocar a hipótese de a Dreamworks ter recrutado técnicos mais criativos, ou que dão mais o litro. No entanto, se no final do filme, alguém tivesse vindo ter comigo e perguntado se este era um Pixar ou um Dreamworks (um pouco à imagem daquele anúncio sobre a Pepsi e a Coca-Cola, há uns anos), devo admitir que responderia Pixar. Não que a Dreamworks não nos tenha ofertado já belos exemplares, contudo, as cores, a eficiência, e o equilíbrio entre o verdadeiro propósito da história e as sequências de acção e comédia, são de uma originalidade estupenda. Agora, a verdadeira pergunta que nos devemos colocar no final é Vi, ou não, um bom filme? A resposta é Não. Vi um filmaço. E, não dizemos isto por ser um supra-Dreamworks. Mesmo que este fizesse parte da parafernália da Pixar, estaria, sem sombra de dúvidas, lá bem em cima. Chocaremos alguém ao dizer que este Panda é menino para dar luta ao Mr. Incredible de Brad Bird?

29 de junho de 2008

Speed a todo o gás.

Já tive oportunidade de manifestar em outros espaços, como o Deuxieme, o interesse que tenho de chegar com tempo ao assento que me está destinado na sala de cinema. Poder, com calma, ver os espectadores que vão ocupando os lugares vazios. É todo um ritual de cusquice que tenho procurado manter ao longo dos anos. No entanto, seja feita aqui a ressalva de que não se tratam de juízos de valor baseados em preconceitos ou estereótipos, mas o apurar de dados objectivos como a idade, sexo, por aí adiante. Sempre tive curiosidade de saber que pessoas compõem a audiência de que faço parte. Este fim-de-semana, o visionamento de Speed Racer não foi excepção. No entanto, com algumas variantes.

A sessão estava marcada para as 21:15. A chegada às bilheteiras deu-se por volta das 21:13. Com dois minutos para o inicio do filme, perdão, dos trailers, achei que a sala já estaria mais para o cheia, o que dificultaria a avaliação dos presentes. Contudo, ainda antes de chegar ao balcão, quando olho para o televisor para ver a disponibilidade, verifico que 97% das cadeiras estavam ainda por ocupar. A dois minutos do inicio do filme, desculpem, dos trailers, estaria aquela informação correcta? Logo a seguir, na lista, vinha a sessão de Houdini – O Último Grande Mágico, marcada para as 21:40. Para este, já só restava 56% da sala. Aquilo era demasiado estranho. Então não tinha valido a pena correr? Cheguei a pensar que os 97% eram já a disponibilidade para a sessão da meia-noite. Deve ser isso, disse para com os meus botões. É certo que este é também o fim-de-semana de estreia de Houdini, mas, caramba, estávamos a falar de Speed Racer. A dois minutos do apagar das luzes, como é que apenas 3% dos assentos estavam preenchidos? A caminho da sala convenci-me de que esta estaria mesmo a abarrotar, uma bandalheira pegada, com pipocas a voar em todas as direcções – esperem, normalmente, isto é o que não se quer –, e que esta seria uma retumbante estreia. Antes de entrar, confirmo os lugares no maior espaço daquele multiplex: 491. Parece que nem a gerência do Cascais Shopping esperava esta recepção. É que, ao entrar, constato que apenas quatro pessoas estavam na sala. Até ao inicio do filme, chegariam mais dezanove. Ao todo, eram 23 cabeças. Com mais de dezoito anos deviam estar uns quinze. O mais pequeno dos espectadores, mesmo à minha frente, precisava daquela cadeirinha especial para ficar mais alto. Era o irmão, com os seus 7-8 anos, que lhe enchia o copo de água. Hoje, continuo sem saber se o petiz foi capaz de ler todas aquelas legendas. No fundo, era uma sala onde, pode-se dizer, se ouvia o zumbir de uma mosca, se ela por lá andasse a passear. A audiência, tirando um ou outro, eram pais, padrinhos, tios ou tipos com o azar do caraças, que não tinham conseguido resistir às investidas dos mais novos. Poucas vezes a plateia fugiu tanto ao esperado como neste caso. Mas, até foi engraçado. O mais assustador mesmo, foi pensar que tinha as mesmas motivações para estar ali que os dois pequenos à minha frente… E, não é que se calhar até tinha? Porém, havia que olhar para a tela. Dali é que sairia o que realmente interessava.

E, interessou, e muito. Valeu a pena o risco. Sim, porque assistir a Speed Racer não se faz com a mesma ligeireza com que se decide ver o último filme de Scorsese. O apelido Wachowski já não é tão apelativo como era em 1999. Emile Hirsch, apesar de boas indicações, ainda não dá garantias. John Goodman e Susan Sarandon, como secundários, já meteram, aqui e ali, o pé na poça. E, depois, todas aquelas cores. Todas aquelas cores, caneco. Chega-se a recear que algo fira a vista. Aquelas transições de planos abruptas. Todos aqueles penteados anime. Aquele estilo vintage num filme futurista. Aquela fórmula clássica do Só sei fazer isto, e tenho de fazer alguma coisa. Irónico como tudo funciona.

Antes de Speed Racer chegar às salas, era unânime a opinião de que este seria daqueles que receberia opiniões divergentes até mais não. Que, ou seria adorado, ou odiado. Sem meios termos. Depois de ver este filme, arrisco dizer que não será bem assim. É possível achar que esta é uma obra insonsa. No entanto, não foi essa a sensação no final do filme. Este caiu mesmo no goto. Encheu as medidas, transbordou de acção, prendeu à cadeira, e todos esses chavões que utilizamos para dizer, simplesmente, que gostámos do raio da obra. Agora, convém não ser ingénuo. Apesar de gostarmos, deveremos ter noção de que este não deve ser recomendado, e perceber que é relativamente fácil o espectador não aderir à visão tresloucada, e até certo ponto simplista, dos irmãos Wachowski. Por isso, em vez do reclame Sim senhor, vão em frente! Não tenham medo, este é bom, preferimos deixar o alerta. Este é daqueles que só vale a pena ver, naqueles dias em que temos a certeza de que deixamos sair a criança que há nós. Mas, aquela criança mesmo pequena. Até pode ser que não o aplaudamos entusiasticamente. No entanto, certamente que sairemos satisfeitos.

27 de junho de 2008

O Incrível Hulk.

A ideia era chegar aqui, e dissertar afincadamente sobre O Incrível Hulk. No entanto, tal não será possível. Pelo menos, não da forma habitual. Mesmo não gostando do filme, o ideal é sair da sala sempre com uma ideia formada. Chegados cá fora, por muito indecisos que estejamos relativamente a um ou outro desempenho, ou a uma ou outra passagem, normalmente, já somos capazes de afiançar thumbs up ou thumbs down. Não é saudável chegar ao fim da película e achar que aquilo não é suficiente para formar uma opinião. Mesmo que má. Porém, foi exactamente isto que aconteceu com o mais recente filme de Edward Norton. Quase dois dias depois, continuo sem saber se gostei ou não. Talvez isto tenha sido mais ou menos aquilo que Fernando Pessoa sentiu, quando um golo de Coca-Cola passou-lhe pela primeira vez no estreito. De qualquer forma, e isso é a parte pior, ainda não cheguei à fase do entranha-se. Hoje, O Incrível Hulk continua a apresentar-se como uma fita estranha. Como se um véu percorresse a obra, e escondesse tudo aquilo que vai para além das aparências. Até prova em contrário, o filme afigura-se como um enorme hábito, feito de sombras e silhuetas, onde nada é posto a descoberto.

Uma coisa é redefinir fórmulas e inovar. Outra, completamente diferente, é pegar em diferentes modelos, e conglomerá-los num único filme, a ver se pega. O problema de Hulk é que isso nem sempre acontece. Se o objectivo era fazer um filme de aventura, podemos dizer que, em parte, o mesmo foi atingido. No entanto, também podemos dizer que Louis Leterrier esteve perto de fazer um drama, um filme de acção, ou até mesmo um romance mal dissimulado. No final, se calhar até nos sentimos tentados a felicitar o argumento de Zak Penn. No entanto, para sempre ficará a dúvida de se o filme não teria mais a ganhar se tivesse optado por abrir menos portas. Pretendendo não projectar falhas pessoais em terceiros, não culpabilizarei a divagação do filme pela indecisão relativamente à sua qualidade. Mas, convenhamos que é chato começar a sentir que a adrenalina vai subir, para logo em seguida a narrativa amainar e vermos Liv Tyler com um pijama e toalhas na mão para Bruce Banner, a quem diz, antes de dormir, Espero que consigas descansar. Tendo o título a palavra incrível, talvez a expectativa criada em torno do filme não tenha sido a mais correcta.

De realmente incrível, existem duas coisas. Os efeitos especiais, e o cameo no final. Se os primeiros ajudam a trazer alguma autenticidade que falta em muitas obras do género, o último é uma verdadeira lufada de ar fresco numa história demasiado negra, sem pingo de humor. O olhar de Banner é sempre pesado, não dando o mínimo espaço para o relaxamento. Todo um mal-estar que passa para o lado de cá. Nem no mais intenso dos Hitchcock se vive esta tenção. Bem, com isto tudo, até parece que estamos a chegar a uma conclusão mais negativa. Quem sabe? Acima de tudo, esperava-se outra coisa. Melhor ou pior, só o tempo o dirá. No entanto, uma coisa é certa. Poucos filmes acabam com a agilidade deste. Quando estávamos prontos para outra, é que o carrossel acaba.

31 de maio de 2008

Como é bom virar o disco, e ouvir o mesmo.

Ontem convidei a Annie para ir ao cinema. Acedeu, desde que não fosse para ver The Sorrow and the Pity (Marcel Ophüs, 1969). Contudo, não ficou explícito se o convite era para ver o mesmo filme. Porque a ideia geral era apenas ir ao cinema, acabámos por ir, mas, uma vez chegados ao multiplex, foi cada um para seu lado. Uma sessão dupla estava fora de hipótese, por isso, havia que escolher ajuizadamente. Ela foi para Lars e o Verdadeiro Amor, enquanto eu fiquei-me por Um Belo Par… de Patins. Nesta relação já cedemos o que havia a ceder. Ambos começavam à mesma hora e, no final, o primeiro a sair não deveria ter de esperar muito tempo. Resolvido o breve impasse, lá fomos.

E, apesar dos rasgados elogios que a Annie tinha reservado para Lars e o Verdadeiro Amor, creio que, à saída, o maior sorriso era o deste que se assina. Ainda não é com este filme que podemos dizer mal da Apatow crew. Longe disso. Nem sequer podemos dizer que não corresponde às expectativas. Um grande filme é aquele que corresponde às expectativas, e guarda ainda alguns trunfos na manga. Este, no mínimo, corresponde. Não estamos perante um Knocked Up. Nem um Superbad. Contudo, isso não significa necessariamente que esta é uma obra inferior. Até pode ser, mas, mesmo que seja, é por muito pouco.

À imagem do que acontece em outros filmes com o dedo de Judd Apatow, Jason Segel, o argumentista, assume também o protagonismo, continuando a provar a tese de que aquele que escreve a história parece ter uma apetência natural para o papel principal. Na realização, o estreante Nicholas Stoller não compromete. A máquina desta equipa que vai deixando marcas na comédia recente, parece tão bem oleada, que este tipo de projectos deverá ser cada vez mais encarado como o princípio de carreira ideal para qualquer cineasta. Dificilmente alguma coisa há-de correr mal. Em última instância, e se quisermos ser reducionistas obtusos desprovidos de qualquer sentido de humor, os filmes com o cunho de Apatow limitam-se a mudar linguagens. Por isso é que surgem aquelas sentenças taxativas “Superbad é a melhor comédia adolescente desde…”, ou “Knocked Up é a melhor comédia romântica desde…”. A grande razão para estas comédias serem as melhores dos nossos tempos, é porque retratam nos nossos tempos. Falam do tipo que mora do outro lado da rua. Daquele que, em pleno século XXI, resolve um desgosto amoroso com uma viagem ao Hawai.

Num filme repleto de gags bem conseguidos, mérito seja dado à forma como algumas das melhores piadas do filme acabam por ser aquelas que provocam os mais silenciosos dos risos. A começar no tema Actores de televisão que pretendem dar o salto para o Cinema, que não podia ser mais adequado, quando vemos na tela actrizes como Mila Kunis (That’s 70 Show), e Kristen Bell (Veronica Mars), ambas celebrizadas em séries já canceladas. Também o recurso a uma série com o nome de Crime Scene, quando Jason Segel participou em três episódios de CSI. Ou, talvez a melhor, a referência a American Psycho II, obra no currículo de Mila Kunis, na cena em que Peter (Segel) e Aldous (Russell Brand) ridicularizam as opções de carreira de Sarah Marshall (Kristen Bell). Para além destes recreios, aquilo que podemos esperar é um continuar da fórmula de filmes anteriores desta troupe eficiente.

Algumas piadas de cariz sexual que convidam os mais pequenos a ficar em casa. Alguma previsibilidade que fica sempre bem num desgosto desta natureza. Mas, tudo regado com um toque especial. Como a running joke da lua-de-mel problemática da personagem de Jack McBrayer, que leva com um workshop sobre o tema em plena praia. Ou como a deliciosa música do Conde Drácula criada por Peter para o seu musical estilo Marretas, ou a mais libertina de Aldous Snow, Inside of You. A presença de caras habituais como Jonah Hill, Paul Rudd ou Bill Hader transmitem uma sensação de familiaridade agradável. No final, acaba por ser a melhor comédia do ano, até esta altura. O pior disto tudo, é que a malta de Apatow continua a habituar-nos mal. Um dia, hão-de fazer um filme mau – cruzes canhoto –, e, irados, caímos-lhes todos em cima. Nessa altura, convém recordar que já fizeram qualquer coisa como este belíssimo Forgetting… não, o nosso é mais bonito… Um Belo Par… de Patins.

(O que a Annie não sabe é que lá estarei amanhã para ver Lars e o Verdadeiro Amor. No mesmo sitio, à mesma hora).

Um filme real.

Ontem o Alvy convidou-me para ir ao cinema. Acedi, desde que não fosse para ver The Sorrow and the Pity (Marcel Ophüs, 1969). Contudo, não ficou explícito se o convite era para ver o mesmo filme. Porque a ideia geral era apenas ir ao cinema, acabámos por ir, mas, uma vez chegados ao multiplex, foi cada um para seu lado. Uma sessão dupla estava fora de hipótese, por isso, havia que escolher ajuizadamente. Ele foi para Um Belo Par… de Patins, enquanto eu fiquei-me por Lars e o Verdadeiro Amor. Nesta relação já cedemos o que havia a ceder. Ambos começavam à mesma hora e, no final, o primeiro a sair não deveria ter de esperar muito tempo. Resolvido o breve impasse, lá fomos.

Desconhecendo o resultado de um outro visionamento, apenas poderei dizer que dificilmente seria melhor do que este. Lars e o Verdadeiro Amor, realizado pelo estreante Craig Gillespie, é um dos filmes mais originais dos últimos tempos. No entanto, dizer isto não chega. No Cinema, como em tudo o resto, não basta ser original. Há que ser um original positivo, daqueles que levam os outros a pensar que vale a pena copiar a fórmula. E, neste filme, há muito material inovador para ser reproduzido pelas mentes mais preguiçosas de Hollywood.

Contudo, deveremos também reconhecer que nem tudo é novo nesta obra. A começar na mensagem, porventura a mais recorrente dos filmes da Disney: Aceitação. No fundo, este é um filme sobre diferenças interpessoais e de como, por vezes, somos capazes de esbater essas mesmas desigualdades com um pouco de flexibilidade mental. Lars e o Verdadeiro Amor testa-nos. Põe-nos à prova. Leva-nos a questionar até que ponto estaríamos receptivos a enfrentar esta realidade, e de que forma lidaríamos com a mesma. Porque, o original aqui é a forma como o argumento brilhante de Nancy Olivier nos coloca no fio da navalha. Uma comunidade inteira aceitar que um homem acredite estar a namorar com uma boneca de plástico, anatomicamente correcta, não é coisa que se faça de ânimo leve. E, todos sabemos que alhos não são bugalhos. No entanto, a narrativa encarrega-se de mostrar-nos que não é assim tão difícil fazer passar alhos por bugalhos.

Mais do que apelar a moralismos, o filme procura promover reflexões. Daí todas as transições, algumas vezes até bruscas, entre momentos hilariantes e mais sombrios. Aliás, convém não irmos ao engano, e até alertar talvez para o facto de o trailer passar a imagem de um filme muito mais cómico do que é na realidade. Em grande parte, esta é a triste história de um homem que tudo faz para evitar o contacto humano. Mas, em abono da verdade, o conto só é triste enquanto não abraçamos a ilusão. Uma vez na sua fantasia, tudo isto não passa de uma experiência como outra qualquer. Perdão, uma maravilhosa experiência como outra qualquer. Resta dizer que Ryan Gosling está feito um senhor actor. Num ano demasiado competitivo, e nivelado por cima, era complicado obter uma nomeação para o Oscar. Porém, após o visionamento deste filme, garanto que hoje não me chocaria se tal tivesse ocorrido. Uma obra magnífica, que demorou demasiado tempo a chegar às nossas salas.

(O que o Alvy não sabe é que amanhã vou ver Um Belo Par… de Patins. Só espero é que, se ele se lembrar de ir ao cinema, não vá ao mesmo sitio…).

26 de maio de 2008

Mais do que meio-cheio.

Primeira ideia a reter: estamos a falar de Indiana Jones. Estamos a falar de um herói que marcou toda uma geração. Perdão, toda uma geração não. Que, durante uma geração (vá lá, oito anos, de 1981 a 89), marcou todas as gerações que o viram no grande, ou no pequeno ecrã. Porque, na altura, alguns eram muito pequenos para vê-lo no grande. Tiveram de esperar, e vê-lo apenas com todo o requinte que só um vhs permitia. Alguns, se calhar, até recordam os três primeiros capítulos da saga como três dos primeiros filmes que viram. Porque, aos sete anos, com maior ou menor dificuldade, já dá para acompanhar as legendas. Estamos a falar de um herói que atravessou gerações. Que uniu miúdos e graúdos, num fascínio inabalável por um tipo de chicote e chapéu. Um tipo que ganhava a vida num part-time como professor na Universidade, mas que era a escavar nos locais mais recônditos do planeta que ganhava a nossa estima.

Segundo dado importante a não esquecer: estamos a falar de Indiana Jones. Uma trilogia que ameaçou deixar-nos, para não mais regressar, em finais da década de 80. Estamos a falar de alguém que não nos procurou durante quase vinte anos. É chato quando queremos estar com alguém, e essa pessoa não quer estar connosco. Isso tem nome, mas rejeição é o único que me vem à cabeça. Com Indy, foi mais ou menos isso que nos aconteceu. Depois de termos visto os três primeiros filmes, queríamos mais. Mas, ele não estava para aí virado. Se pretendêssemos a sua companhia, lá tínhamos de ir à cassete, ou, posteriormente, ao Dvd, e recuperar as aventuras de outros tempos. Indy não queria voltar, mas nós fazíamos questão de tê-lo bem por perto, ali na estante, para o caso da saga se ficar mesmo pelo terceiro volume. O pack, para muitos, não é mobília. É família.

Terceiro aspecto que convém sublinhar: estamos a falar de Indiana Jones. Um nome que encerra em si muito mais do que uma simples película enrolada à volta de uma bobine. Estamos a falar de alguém que nos marcou, nos abandonou, e decidiu regressar às nossas vidas quando bem lhe apeteceu. Isto é coisa para deixar um tipo lixado. Mas, como é Indy, ainda conseguimos perdoar. Este é um filme que aparece, quando todos o aguardávamos de braços abertos. Tivesse um quarto capítulo surgido em meados da década de 90, e algumas vozes se insurgiriam. Vinte anos depois, todos sentem a sua falta. No entanto, vinte anos depois, nem todos aplaudiram o seu regresso. Aliás, mais do que isso, vinte anos depois, alguns dizem agora que preferiam ter ficado apenas com aquilo que há já bastante tempo se orgulham de ter ali na estante. Nem uma semana depois de o filme ter estreado, qualquer crítica positiva ao filme, constrói-se numa base de defesa à obra, e não dum enaltecimento da mesma.

Quarto, e último ponto a focar: estamos a falar de Indiana Jones. É precisamente por ter gostado deste quarto filme, que me recuso a defendê-lo. Porque estamos a falar de Indiana Jones, e Indiana Jones não o merece. Verdade seja dita, gostei tanto do filme, que até o sacana do Shia LaBeouf se safa. Não sei se o rapaz terá estofo para aquilo que ficou subentendido, no entanto, para o trabalho que lhe foi pedido agora, deu bem conta do recado. O mesmo com Cate Blanchett, Karen Allen e John Hurt. Por aí fora. Estas coisas não se decidem. Ou cai, ou não cai no goto. Felizmente, para Alvy Singer, este caiu. E, perdoem-me o tom paternalista destas últimas palavras, mas, depois de tudo aquilo que foi lido e ouvido nos últimos dias, há uma frase célebre que associo imediatamente àquilo que se está a passar com este filme. Não chores quando o sol se põe, porque isso impedir-te-á de ver as estrelas. Não acredito que vivalma tenha vertido uma lágrima, como resultado do enorme desgosto perante esta obra. No entanto, parece-nos que este é o verdadeiro mal em torno do filme. Uma das coisas que aprendemos com Indiana Jones foi a encontrar tesouros. E, este Reino da Caveira de Cristal tem alguns. Não estão é no sítio do costume.

12 de maio de 2008

Uma abordagem diferente.

Prefiro este tipo de crítica negativa inconvencional, a qualquer tentativa mais espaventosa e presunçosa de derrubar um filme. Claro que a figura do indivíduo não deixa de ser risível. Mas, essa é a intenção. Ao contrário de alguém que escreve, a propósito de Melinda e Melinda, Não é por ser sempre o mesmo filme que este filme é dolorosamente decepcionante, porque a fazer o mesmo filme Woody Allen tem feito filmes maiores (…) E diz-se que já está a realizar, em Londres, uma coisa chamada Match Point. É certo que isto também acaba por ter piada, no entanto, como mero fruto do acaso. Ainda assim, acho que fiquei com mais vontade de ver Speed Racer.

11 de maio de 2008

Foi mais ou menos assim que assisti a isto.

Porque este filme já roubou tempo demasiado, não me alongarei nestas considerações. Sempre defenderei a tese segundo a qual nenhum filme deve esbarrar na crítica de quem o viu. Porque todos gostamos de Cinema, jamais poderei ceder à tentação de não recomendar determinada obra. Em último caso, recomenda-se com o intuito de mostrar tudo aquilo que está mal. E, é única e exclusivamente com esse propósito, que aconselho este Loucuras em Las Vegas (Tom Vaughan). Apesar de ter visto o filme já há dois dias, continuo a tentar reconstituir os passos que levaram à sala de cinema, e perceber como é que me conseguiram levar nesta coboiada.

Enumerar os defeitos desta obra é cair no facilitismo. Opinar sobre as suas qualidades, quase um exercício de bruxaria. Esta é a comédia romântica que todos vimos, quando começámos a gostar de Cinema. As fórmulas do costume estão todas aqui, e não existe o mínimo esforço de deixar um cunho pessoal. Arte é quando 1+1 não é igual a dois. Em Loucuras em Las Vegas, esta soma dá zero. Quando o filme tem apenas cinco minutos, a dupla de protagonistas decide viajar para Las Vegas. Quem é que falou em apressar a narrativa? O maior cliché de todos, no entanto, são estas duas palavras que surgem em todo e qualquer filme em que ele é um preguiçoso de primeira, e não consegue assentar: Minor League. Estas duas palavras estão para as comédias românticas, como I’m Your Father está para Star Wars. Cameron Diaz e Asthon Kutcher, já mostraram bem mais do que isto. Mas, também, numa história como esta, quem é que os pode criticar. Se calhar até podemos. Bem, no início disse que não iria alongar-me, e isto já está a ficar demasiado grande. Resta dizer que, há momentos em que nos rimos, coisa que convém, num filme que se apresenta como comédia. Cabe a Rob Corddy (Daily Show) dar-nos os melhores gags. No entanto, em mais de hora e meia, são muito poucos os instantes de lucidez, em que conseguimos conectar com o enredo. Tudo funciona aos repelões. E largos. Um bocado como aqueles televisores em que a antena não apanha bem o sinal, e temos de dar uma valente pancada de lado – só há pouco tempo tenho Tv Cabo, por isso sei bem do que estou a falar. Posto isto, loucura é ver este filme. Sejam como Alvy Singer, e dêem azo ao vosso lado mais demente.

4 de maio de 2008

Começamos bem.

Ver o primeiro blockbuster da temporada, no fim-de-semana de estreia, é uma tradição que tenho procurado manter ao longo dos anos. Há qualquer coisa de mágico, naquela romaria para o Cinema. Ver a sala maior do multiplex a encher, o número de cabeças a aumentar até às primeiras filas, e sentir que até os trailers provocam burburinho. Apesar de, ainda hoje, ter a possibilidade de assistir a antestreias, nada recompensa a partilha de emoções com mais quatrocentas vivalmas. As gargalhadas gerais, os Ooohh, o sentir que alguém, sete lugares à esquerda, deu um salto da cadeira, os suspiros conjuntos. Felizmente, foi com Iron Man que tudo isto aconteceu, este fim-de-semana.

Antes de mais nada, que se coloquem todas as cartas em cima da mesa. Até este sábado, nunca tinha entrado na casa de Tony Stark. Nunca tinha lido uma única tira da Marvel sobre este herói. Nem sequer visto um desenho animado. Sabia da sua existência, conhecia o fato. Assim como sei de Muralha da China, e conheço os tijolos. Tudo muito superficial. Até hoje, por exemplo, Pepper era apenas sinónimo de uma bebida. A partir deste fim-de-semana, e, pelo menos, até deitar as mãos a algum comic book, o filme de Jon Favreau é a referência na mitologia do homem de ferro. O maior elogio que poderei deixar ao filme do homem que passou como secundário em séries como Friends, é o de ter deixado uma vontade do camandro de ler e conhecer tudo o que há para conhecer sobre este herói da Marvel. Temos de tratar disso.

Mais especificamente, podemos afirmar que Iron Man é um dos melhores filmes do ano. Até diria que é tudo aquilo que uma adaptação deve ser, se soubesse mais sobre aquilo que está a adaptar. No fundo, sabe bem ver um filme de entretenimento, que entretém. No entanto, não só diverte, como ainda se dá ao luxo de atirar para o ar algumas farpas, que alguns entusiastas não resistem a apanhar, para longo partirem para discussões sobre políticas internacionais. Acima de tudo, Jon Favreau parece saber o que quer e, mais importante, como obtê-lo. Assim como o fato, este é um filme com cabeça, tronco e membros. Consciente da importância do pontapé de saída numa saga (sim, porque a sequela já está agendada para 2010), o realizador não teve qualquer problema em optar um registo mais sério, pragmático e sem pressas. O filme não se perde em gags inconsequentes. Em Iron Man, tudo leva o seu tempo. Talvez por isso, a história tenha tão poucas ramificações. Não há muito assunto para tratar. O enredo é bastante linear, e o propósito é bem visível, desde inicio. O que é bom, porque, aquilo que nos é contado surge de forma pormenorizada. Será preciso, talvez, recuar até ao primeiro Batman (Tim Burton, 1989), para vermos uma tão boa desconstrução do homem que dá lugar ao herói.

No entanto, Iron Man padece do mesmo mal de outros primeiros filmes. Ao ser necessário dar a conhecer como tudo começou, facilmente dividimos a obra em dois momentos, bastante diferentes entre si. Neste caso, a construção do fato determina o inicio do segundo e último acto. E, talvez aqui, Jon Favreau pudesse ter tido maior atenção, dado que a transição ocorre de forma algo atabalhoada. A acção, embora sempre presente, salta de forma inesperada do ecrã nos últimos minutos. Não que isso seja muito grave. Contudo, teria sido melhor, logo no inicio, dar-nos algo mais violento, ao bom estilo de RoboCop (Paul Verhoeven, 1987) para equilibrarmos a balança.

No final, ficamos com um óptimo filme. Um magnifico tiro de partida para a temporada que se avizinha. Terrence Howard, num papel que faz com uma mão atrás das costas, mais do que preenche os mínimos. Jeff Brigdes, igual a si próprio, não deixa ninguém mal visto. Gwyneth Paltrow, sem a mesma cor do seu par, cria a química suficiente para acreditarmos. Até Stanley Lee, qual Hefner, porventura no melhor cameo da sua carreira, se sai bem. No entanto, o filme tem dois grandes vencedores. Jon Favreau, o realizador que convenceu. E, Robert Downey Jr., que regressa a um patamar do qual nunca deveria ter saído. Perdão, três vencedores. Sim, três. Apesar do dinheiro que lhe sai do bolso, o espectador também ganha alguma coisa, caramba.

18 de abril de 2008

Corda a este relógio, não tinha sido má ideia.

Um bom thriller é como um Corneto. Por muito boas que sejam as pepitas de chocolate no topo, é o afunilar de doces no final que tem de valer o gelado. É por isso que, a determinada altura, muito boa gente quer saltar logo para o outro lado do cone, isto é, para o final do filme. Quando o Corneto, ou, neste caso, o thriller, é bastante bom, é exactamente isso que acontece. A vontade é a de saber logo o desfecho. Resolver o enigma e atribuir culpas. Ora, não é bem isso que acontece nestes mais recentes 88 Minutos de Al Pacino no grande ecrã. Antes de mais, será apropriado dizer que não partilhamos as profecias catastrofistas daqueles que afirmam estarmos na presença de um dos piores filmes de todos os tempos. Assim, de repente, lembro-me de uma mão cheia deles que colocaria à frente deste 88 Minutos (Jon Avnet). Agora, também é verdade que não está aqui um grande motivo de orgulho para os intervenientes. Incluido, Al Pacino. Sim, porque não há lugar para filhos e bastardos. Quanto mais não seja porque não soube escolher o papel. Acontece aos melhores. A Cuba Gooding Jr., muitas vezes.

O filme peca por falta de originalidade, por preguiça na maior parte dos diálogos, e por alguns clichés que, vamos lá, em tão pouco tempo, seriam escusados. A derradeira prova dos nove para saber se o thriller funciona, em termos pessoais, será sempre o persistir da dúvida até final. Sem falsas modéstias, Alvy Singer não é dos mais astutos dos espectadores. Até hoje, e, isto é a mais pura das verdades, contam-se pelos dedos de uma mão, as vezes que identifiquei o criminoso. Disseram-me que O Assassinato de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford, não conta. Quando 88 Minutos estava prestes a chegar ao fim, e pude constatar que o patife era aquele de quem suspeitava, é que ficou tudo estragado. O Corneto, que já vinha perdendo o sabor desde a parte em que entra a bolacha, tinha criado indisposição. Nem tudo foi mau, atenção. O inicio foi bom, e o filme prometia. Não estando ao seu nível, apesar de tudo, ver Pacino a trabalhar é sempre recompensador. Agora, quando as peças encaixam antes do tempo, o puzzle perde a piada. Poderíamos agora partir para analogias de outras coisas que, antes do tempo, perdem a piada, porém, só nos lembramos daquela reacção da Faith Hill. Para todos os efeitos, são 88 minutos que podem parecer um pouco mais.